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segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

‘Perdi meus filhos em menos de 5 minutos’, diz mulher que teve família e casa levada pela chuva em Urucânia

A estudante Érica Rozeno enterrou a filha de 13 anos e a mãe de 67 anos, que morreram em um temporal. ‘Encontrar meu menino e colocar um ponto final’, disse sobre criança desaparecida desde 3 dezembro

A estudante Érica Juventino Rozeno, 31 anos, viu sua vida mudar drasticamente após um temporal na cidade mineira de Urucânia, na Zona da Mata de Minas Gerais. Em 3 de dezembro, ela perdeu a filha de 13 anos e a mãe de 67. Hoje, espera o resultado das buscas pelo filho de 7 anos, que está desaparecido.

O corpo de Maria Fernanda Rozeno, 13 anos, foi encontrado na manhã do dia 5 de dezembro. O da avó foi achado somente no dia 8 em Rio Casca, a cerca de 30 quilômetros abaixo do ponto onde as buscas começaram. As buscas pelo menino são mantidas.

No mesmo temporal, um homem desapareceu na cidade. Desde o início do período chuvoso, em outubro, sete pessoas morreram no estado em decorrência da chuva. Três pessoas, incluindo o Vinícius, ainda estão desaparecidas.

"Encontrar meu menino e colocar ponto final", disse em entrevista do G1 a mulher, que relembrou momentos de desespero e impotência ao ver a casa invadida por uma tromba d'água. “Perdi meus filhos em menos de cinco minutos. A ficha não caiu ainda”, completou.

Naquele dia, o marido Ronaldo Rozeno, 41 anos, saiu para trabalhar às 4h40, debaixo de chuva, e Érica colocou os dois filhos para dormir na cama do casal. Ela contou que trovejava e tinha goteiras.

Eva de Jesus Juventino, de 67 anos, mãe de Érica, passava uma temporada na mesma casa para se recuperar de uma queda, sofrida em julho, segundo a estudante. No momento, a idosa estava deitada em um colchão no mesmo quarto.

Fernanda e Vinícius Juventino (à esq.), filhos de Érica Juventino Rozeno. (À dir.) A família de Urucânia aparece sorridente (Foto: Érica Juventino/Arquivo pessoal)

A casa da avó fica em Rio Casca, cidade vizinha e também devastada pela chuva. “Eu dormia 10 minutos, olhava os meninos. Sempre que chovia e trovejava eu mantinha meus meninos tudo comigo”, disse.

Por volta das 7h, ela disse que ouviu um barulho muito forte, como se algo estivesse batendo na porta da sala.
"Quando abri a porta, vi um mundo de água, por todos os lados. Vi a geladeira passando, indo embora na água. Já não tinha como sair".

Ela ligou para uma vizinha e pedir ajuda para retirar a família, mas tudo aconteceu muito rápido.

“Quando desliguei o telefone, a parede do meu quarto tinha estourado. Subi na janela e pedi socorro. Eu pensava: ‘vamos morrer todos’. Meus meninos e minha mãe subiram na cama, que levantou na água”, disse. Eles ainda tentaram escapar subindo em uma cômoda e se amarrando no cabo da TV, que vinha do telhado.

“Só eu que fiquei desamarrada. O importante era salvá-los. A Fernanda estava presa pela cintura e pedi que se agarrasse no que pudesse. Minha mãe e o Vinícius no outro cabo”, relembrou. Segundo ela, neste momento, o pensamento foi que, se o telhado fosse embora, eles poderiam se agarrar nele.

Emocionada e com o pensamento ainda nos filhos, ela contou o último apelo da adolescente.
"Mãe eu não quero morrer porque eu não aproveitei nada".

Sobre o garoto, disse que, mesmo diante do desespero, ele beijava o cachorro o tempo todo.

Érika também foi levada pela correnteza, engoliu muita água, mas conseguiu se agarrar a um pedaço de madeira e subir em árvores. Do alto de uma delas continuou a pedir socorro. Os filhos e a mãe já não podiam ser mais vistos. Ela contou que ficou confusa se deveria pular para reencontrá-los.

“Já pensava que tinham morrido, mas me vinha uma esperança de achá-los vivos. No momento que entrei no bote [dos Bombeiros], disse que tinha que procurar meus meninos e minha mãe”, disse.

Até chegar socorrida ao hospital, já havia se passado cerca de quatro horas, segundo Érica.

“Olhava o relógio, 11h, 11h30. No momento que eu vi o meu marido, ele me perguntou onde estavam os meninos. Já não tava fácil pra mim. Ficou pior ainda", lembrou o momento em que teve a certeza de ter perdido os filhos e a mãe.

A família morava em Parada Paulista, na zona rural de Urucânia, perto de uma usina de açúcar e álcool, onde o marido trabalha. Agora, estão no distrito de Bom Jesus de Cardoso em uma casa alugada. A prefeitura informou que vai pagar um aluguel social.

Tromba d'água atingiu a cidade de Urucânia, na Zona da Mata (Foto: Divulgação/ Prefeitura)



Buscas


De acordo com o Corpo de Bombeiros, equipes percorrem as localidades, partindo do ponto do desaparecimento, há mais de dez dias.

A equipe em Urucânia tem o apoio de cães farejadores, que atuaram na localização de vítimas da Barragem de Fundão, em Mariana, em 2015.

O trabalho, diário, só é interrompido no período noturno para descanso dos militares. Segundo os bombeiros, as buscas são feitas por vistoria em terra, remexendo galhos, madeiras e amontoado de terra.

O prefeito de Urucânia, Frederico de Carvalho (PRB), decretou situação de emergência na cidade. Os governos de Minas Gerais e federal reconheceram a situação do município.

“Nos dá a possibilidade de conseguir recursos com mais celeridade. Uma equipe do Ministério da Integração Nacional deve chegar à Zona da Mata na terça-feira (19)", disse o prefeito sobre o decreto.

Na cidade, o temporal do dia 3 de dezembro deixou muito prejuízo, e tem chovido com menos intensidade deste esta data.

Com informações do G1

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