segunda-feira, 2 de março de 2015

Colunista Mauro Fontenelle - Experiência Cubana – Parte 01


Fachada do prédio do Ministério do Interior.
          Há quase 10 anos visitei Cuba. Foram 20 dias de puro surrealismo e história. Minha paixão pela ilha caribenha surgiu muito antes quando um amigo recomendou os livros de Pedro Juan Gutierrez. Escritor de ficção erótica, Pedro Juan não é publicado em Cuba. O regime não permite.
      Como todo turista convencional, visitei Varadero e Havana. Como turista mergulhador passei 10 dias em Playa Giron.
       Em Havana (Bairro Miramar) e Varadero o sistema praticamente nos obrigava a ficar longe dos cubanos.
É expressamente proibida a permanência deles a não ser como serviçais. No meu hotel em Havana, um amigo local, pilotando uma moto dos idos da segunda grande guerra, foi proibido de entrar nas instalações do meu hotel salvo com minha autorização presencial. Ridículo. Em Miramar os cubanos eram instruídos a mudar de calçada antes de cruzar com turistas. Ainda em Havana, no Malecon, principal avenida beira-mar da capital, subi quatorze andares de um prédio (elevadores não funcionam) para chegar na cobertura de um amigo do meu amigo. Lá eram criados clandestinamente pombos e porcos para consumo. Portar carne é uma espécie de crime uma vez que o governo só tinha como disponibilizar para a população uma espécie de massa cárnica. Estar entre os cubanos foi mágico uma vez que eles me mostraram as mágicas que tinham que fazer para sobreviver ao racionamento.
            O jeitinho brasileiro era institucionalizado na ilha. No táxi a primeira coisa que o motorista nos perguntava, antes do destino, era se ele podia fazer a corrida com o velocímetro desligado (assim eles ficariam com o dinheiro e não o estado). Na loja de charutos Cohiba (o charuto predileto de Fidel) antes de nos vender, o atendente nos perguntou se poderia nos entregar a mercadoria (exatamente a mesma caixa que vimos na loja) fora do estabelecimento com um “desconto” de 90%.                Prostituição é endêmica. As mulheres sonhavam (ou sonham) em encontrar um gringo que as levem embora da ilha. Segundo esse amigo que é médico, professor de educação física e mergulhador aposentado da guarda anfíbio do Comandante, todos recebiam cerca de US$25/mês independente da ocupação ou formação (em 2005). Assim qualquer por fora era de grande valia. Após o fim da ajuda da União Soviética em meados dos anos de 1980, a população cubana emagreceu em média 11 quilos.
           Se você fosse cubano só tinha duas alternativas para fazer compras: ou usava os pesos cubanos para comprar a sua cota na tenda em que era cadastrado ou utilizava o “por fora” para comprar nas lojas de turistas.
         Como estava na companhia de um legítimo médico cubano quis conhecer a tão famosa saúde pública cubana. Falácia. Os centros de saúde são carentes de tudo. Em Playa Giron os quartos se quer tinha janelas e roupas de cama. Falta de tudo um pouco. Pelo que vejo nos noticiários aqui no Brasil, estamos mais ou menos na mesma dos nossos amigos de lá.
       De Varadero a Playa Giron víamos manadas de cubanos caminhando e pedindo carona nas estradas. Linhas de ônibus convencionais para cubanos não existiam. Segundo informações dos locais, você só podia viajar para outra cidade se apresentasse um convite formal de outra família para te receber. Você não podia fazer compras na tenda em que não estava cadastrado uma vez que as “porções” por estabelecimento eram rigorosamente controladas. Em qualquer lugar, e sem restrições, o cubano só podia comprar rum e charutos, o ópio do povo.
          Disponível para o nativos apenas dois canais de tv abertos nos quais 99% da programação eram sobre os feitos da revolução e a opressão dos Estados Unidos, o gigante imperialista.
        Que fique bem claro, todas estas dificuldades não são partilhadas pelo alto escalão do governo. Meu amigo era capitão reformado da marinha e tinha na sua casa, além de um Pegeout 2006 novo, todas as regalias que a classe média alta encontra por aqui. Foi por essa peculiaridade que minha viagem por lá foi a mais diferente possível. Eu estava com um membro da elite que me mostrou ambos os lados da revolução.
         Não existia o tal embargo econômico. O que existia era a proibição de empresas americanas de fazer negócio com a ilha. Carros novos, apesar de ser grande minoria, cortavam a ilha por todos os lados e para dirigi-los bastava ser um membro do clube VIP.
        Em 2005, segundo meu anfitrião, os únicos beneficiados com o dito embargo eram os irmãos Castro. Era o último pilar de sustentação ideológica de uma revolução que já não dava mais certo. Como disse Roberto Ampuero em seu livro Meus Anos Verde Oliva, “Cheguei a ilha de Fidel Castro fugindo de Augusto Pinochet. A ilha era então a minha utopia. Pinochet, meu pesadelo. A experiência me ensinaria que ambos eram ditaduras, e que não há ditaduras boas nem justificáveis”.
          Como definitivamente nem tudo são espinhos, aguardem a parte 2.

Para todos os lados cartazes comemorando mais um aniversário da revolução

Entrada da Universidade de Havana

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